1 de mai. de 2008

2.1. Pesquisa e desenvolvimento tecnológico: Modelos e desafios

O chamado "modelo linear" do desenvolvimento tecnológico originou-se do famoso Relatório Science The Endless Frontier preparado por Vannevar Bush atendendo pedido feito em 1944 por Franklin Roosevel, então Presidente dos EUA [1]. Classificando a pesquisa como básica (visando conhecimento) ou aplicada (visando uso), defendendo total separação entre elas e insinuando que a pesquisa básica era a precursora do progresso tecnológico, este Relatório plasmou "o paradigma dominante para a compreensão da ciência e de sua relação com a tecnologia durante todo o resto do século XX" [2]. Este modelo linear, proposto quando a humanidade estava sob o impacto do lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, pautou a política de C&T do pós-guerra não só dos EUA mas da maioria dos países do mundo ocidental, o Brasil inclusive.

Diversos fatores e eventos iniciaram o desgaste deste modelo. Países sem tradição de pesquisa básica, que haviam trilhado caminhos alternativos, ameaçavam os seguidores da ortodoxia do modelo linear conseguindo espetaculares avanços tecnológicos e comerciais (lançamento do Sputinik em 1957 pela então União Soviética; desenvolvimento acelerado da indústria japonesa automotiva desbancando a dos EUA). O modelo linear começou então a ser questionado sob diversos ângulos, como por exemplo: (i) por órgãos de governos, que se perguntavam se investimentos apenas em pesquisa básica seriam suficientes para enfrentar a crescente competitividade resultante da globalização; (ii) pela comunidade acadêmica, que reconhecia a crescente importância de novos modos de geração de conhecimento [3].

Em 1997 Stokes propõe um "Plano Conceitual" em substituição à "linearidade" do modelo de Vannevar Bush e chama a atenção para a importância que teria a "pesquisa inspirada no uso" do "Quadrante de Pasteur" deste Plano [2]. Concomitantemente com estes questionamentos, emerge aos poucos toda a complexidade, importância e poder transformador da inovação [4-6] assim como a existência de poderosas barreiras entre ciência, tecnologia e produção industrial nos países em desenvolvimento [7]. Cristaliza-se o entendimento de que a ciência é apenas um dos muitos componentes da inovação, que não pode ser entendida ou estudada apenas no contexto do modelo linear, tão caro à academia pela importância que nele teria a investigação básica [8] .

Referencias citadas
  1. Bush V (1945) Science The Endless Frontier. A Report to the President. Washington, United States Government Printing Office (http://www.nsf.gov/od/lpa/nsf50/vbush1945.htm)
  2. Stokes DE (1997) O Quadrante de Pasteur. A ciência básica e a inovação tecnológica, edn Tradução 2005 pela Editora Unicamp. Campinas: Editora Unicamp
  3. Gibbons M, Limoges C, Nowotny H, Schwartzman S, Scott P, Trow M (1994) The new production of knowledge: the dynamics of science and research in contemporary societies. London; Thousand Oaks; New Delhi: SAGE Publications
  4. Coleção "Clássicos da Inovação", Editora Unicamp, Campinas, São Paulo (http://www.editora.unicamp.br/)
  5. Mccraw T (2007) Prophet of Innovation: Joseph Schumpeter and Creative Destruction. Cambridge and London: Belknap Press of Harvard University Press
  6. Fagerberg J, Mowery D, Nelson R (2006) The Oxford Handbook of Innovation (Oxford Handbooks). Oxford University Press, USA
  7. Sagasti F (2004) Knowledge and innovation for development. The Sisyphus challenge of the 21st century. Cheltenham, UK; Northampton, USA: Edward Elgar
  8. Fagerberg J (2005) Innovation: A Guide to the Literature. In: The Oxford Handbook of Innovation. Edited by Fagerberg J, Mowery D, Nelson RR. Oxford: Oxford University Press; pp. 1-26.